Artigo
12/02/2016, 16:56

Como "O Menino e o Mundo" chegou ao Oscar

POR SABRINA NUDELIMAN WAGON, ESPECIAL PARA TELA VIVA NEWS

Num ano difícil para a economia do Brasil em diferentes setores e indústrias, um longa de animação traz uma grande alegria e muito orgulho para o país. "O Menino e o Mundo", dirigido por Alê Abreu, foi nomeado ao Oscar 2016, na categoria de melhor animação.

A primeira entrega de prêmios da Academia aconteceu em 1929, e só agora, pela primeira vez, uma produção latino-americana concorre na categoria.

Mas como o Brasil chegou lá, com este filme, neste ano?

O filme é, antes de mais nada, uma obra de arte ímpar. Alê Abreu, Priscila Kellen, Ruben Feffer e Gustavo Kurlat, com toda a equipe, produziram o filme com baixo orçamento, de apenas US$ 500 mil, mas com originalidade e qualidade capazes de concorrer na mesma categoria com gigantes como "Divertida Mente", da Pixar, que custou US$ 175 milhões apenas na produção.

O Brasil tem aumentado e melhorado sua produção audiovisual, porém tem ainda pouco histórico de performance internacional, existem pouquíssimos mecanismos de incentivo para a exportação. As iniciativas existentes focam especialmente em coprodução, com programas como BTVP, Cinema do Brasil e o apoio da Ancine à participação de produtores em mercados internacionais.

Estratégia

A distribuidora internacional – neste caso a Elo Company – acaba tendo um papel determinante neste processo.

A empresa já era a distribuidora de outros filmes e curtas-metragens de Alê Abreu, como seu primeiro longa, "Garoto Cósmico", e vinha acompanhando passo a passo toda a produção do "Menino", cuja trilha e áudio foram realizados na Ultrassom, que na época dividia sua sede com a distribuidora.

Em 2013, com o filme pronto, a Elo assinou o contrato de aquisição dos direitos no Brasil e internacional do filme para distribuição em todas as mídias.

Desde então, foi feito um forte trabalho de vendas junto a festivais internacionais e para diversos territórios.

No ano seguinte (2014), o filme conquistou o prêmio do público e da crítica no festival de animação de arte mais importante do mundo, o de Annecy, na França. A produção nacional já tinha um histórico de aclamação neste festival, com "Uma história de Amor e Fúria" (de Luiz Bolognesi, 2013).

Neste ano, a Elo assinou contrato de distribuição nos Estados Unidos com a parceira Gkids. A escolha se baseou em análise de benchmarks e criterioso estudo da empresa, que tem levado anualmente animações internacionais ao Oscar. O modelo de negócio se baseia num mínimo garantido e divisão de receitas em todas as mídias. A Elo reduziu o valor da licença em contrapartida de um forte compromisso da Gkids de levar o filme à competição do Oscar.

No final de 2014, avaliamos a competição na categoria da animação e definimos esperar um ano para o lançamento do filme nos Estados Unidos, com o objetivo de concorrer ao Oscar.

Enquanto isso, o filme fez carreira internacional, vendido a mais de 50 territórios, incluindo exibição na HBO na América Latina, França, Dinamarca, Croácia, México. Será lançado este ano no Japão, mercado complicadíssimo para a entrada de animações estrangeiras, e já foi vendido também para a China.

No ano passado (2015), as vendas totalizaram mais de 90 territórios e o filme foi licenciado no iTunes Brasil, figurando entre os destaques da plataforma. No mesmo ano foi lançado na França, conquistando mais de 100 mil espectadores.

No final do ano, o filme foi lançado simultaneamente em Los Angeles e Nova York, com objetivo de se qualificar ao Oscar.

Indicação

No início de 2016 veio a indicação para a competição oficial do Oscar, na categoria de melhor animação, e a vitória no Annie Awards, na recém-criada categoria de animação independente.

Com a indicação, começou a campanha para conseguir os votos dos membros da Academia para levar o prêmio. A campanha tem sido coordenada entre Elo, Gkids e Filmes de Papel (produtora do longa) com foco em atingir e sensibilizar os eleitores.

Como a maioria está em Los Angeles e Nova York, foi criada uma campanha focada nestes locais, com valor total inferior a US$ 200 mil. As ações incluem a contratação de assessoria de imprensa especializada, publicação na mídia (Variety, LA Times e New York Times), screenings privativos e sessões especiais com o diretor.

O Brasil se mobilizou para apoiar a campanha e em especial contamos com enorme apoio da Ancine, SPCine, BTVP, Cinema do Brasil, Finep, Apex e BNDES. Além disso, desenvolvemos uma campanha de crowdfunding para arrecadar recursos.

As duas semanas restantes para a cerimônia do Oscar são de grande expectativa. Apesar da enorme competição com "Divertida Mente", podemos dizer que o audiovisual brasileiro já é vencedor. Perguntas como "que tempero colocaram na animação brasileira?" já definem o impacto que se deu em todo o segmento de mercado.

Esse "tempero" é uma mistura de um ótimo produto, com ingredientes extremamente locais como a música e o traço simples e colorido, com uma história universal e sem diálogos, o que favorece sua compreensão universal. Tem ainda uma estratégia acertada de participação em festivais, sem "queimar a largada", ou seja, sem exibir a obra em festivais pequenos antes da exibição em festivais de renome que exigem a première internacional ou regional.

Contou muito também uma estratégia de distribuição adaptada ao produto, com foco em distribuidores de cinema em cada território, e a seleção correta de parceiros nos mercados-chave como Estados Unidos (Gkids) e França (Le Film Du Preau). O entendimento dos mercados é fundamental. Enquanto o filme foi lançado nos Estados Unidos como filme infantil, por exemplo, na França foi promovido como animação de arte, no estilo de "As Bicicletas de Beleville".

Finalmente, não se ganha uma indicação sem lobby e marketing internacional, com contato permanente com veículos especializados como a Variety, que acompanhou toda a trajetória do filme.

Os resultados já são sentidos, por exemplo, com o apoio inovador de São Paulo à exportação do filme, abrindo seu posicionamento como capital da animação. A Ancine também tem sido uma grande parceira e acredito que novas linhas de apoio a agencias de vendas e produtos de exportação virão em breve.

O filme já tem três janelas de TV paga vendidas no Brasil, para HBO, Turner e Fox.

Algumas curiosidades

– Desenhado à mão por Alê Abreu, com técnicas mistas de desenho, pintura e colagem, "O Menino e o Mundo" começou a ser produzido em agosto de 2010.

– Os desenhos da animação foram feitos diretamente com lápis coloridos, giz de cera, pastel e canetinha, não havendo desta forma separação entre desenho e pintura na hora da produção.

– "O Menino e o Mundo" seria originalmente um documentário animado e se chamaria "Canto Latino". A mudança veio com o surgimento do personagem Cuca entre as anotações do diretor. Na sequência, veio a história.

– O filme praticamente não tem diálogos e os poucos que existem são em português ao contrário. Algumas crianças reconhecem as falas.

– A trilha sonora, criada por Ruben Feffer e Gustavo Kurlat, é fundamental para a narrativa e encanta com elementos da música brasileira e sonoridades criadas a partir de instrumentos inventados.

– Emicida criou o rap "Aos olhos de uma criança" especialmente para o longa, e o clipe com imagens do filme já teve mais de 800 mil visualizações no YouTube.

– Com a indicação, Alê Abreu passa a integrar a Academia, que outorga os prêmios do Oscar.

Sabrina Nudeliman Wagon é CEO da distribuidora Elo Company. Formada em administração de empresas na FEA-USP, com dois semestres de International Business na FIU. Foi aluna especial de mídias digitais na ECA-USP e tem especialização em liderança em curso do Insper/Instituto Rottemberg (Israel). Iniciou sua carreira na consultoria Mckinsey&Co e em 2005 fundou a Elo com Ruben Feffer e Flavia Prats Feffer.

Sabrina Nudeliman Wagon é CEO da distribuidora Elo Company. Formada em administração de empresas na FEA-USP, com dois semestres de International Business na FIU. Foi aluna especial de mídias digitais na ECA-USP e tem especialização em liderança em curso do Insper/Instituto Rottemberg (Israel). Iniciou sua carreira na consultoria Mckinsey&Co e em 2005 fundou a Elo com Ruben Feffer e Flavia Prats Feffer.

Comentários

1 Comentário

  1. Orlando Valle disse:

    Ótimo artigo. Esclarecedor e que remete à necessidade de mais investimentos em capacitação técnica de toda a cadeia produtiva para atingirmos um nível de qualidade e produção que justifique a cara, permanente e necessária articulação internacional.

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