NCTA Cable 2006
10/04/2006, 00:40

Lição dos EUA: crescimento, só enfrentando TV aberta

POR SAMUEL POSSEBON, DE ATLANTA

Um fenômeno muito parecido com o que se viu em 1996, quando a DirecTV entrou para valer no mercado norte-americano de TV por assinatura, pode ser visto na edição deste da NCTA Cable 2006, o principal evento da indústria de cabo dos EUA, que acontece esta semana em Atlanta. Os operadores estão evitando tocar no problema da entrada das teles no cenário competitivo, ou pelo menos estão evitando trazer a questão para o primeiro plano. A palestra de abertura do evento, realizada neste domingo, 9, foi centrada nos exemplos de sucesso e sobre os desafios vencidos pelo mercado norte-americano, nos seus 50 anos de história. Talvez uma discussão mais aprofundada sobre a questão dos novos competidores fique para a palestra desta segunda, com os CEOs das maiores operadoras.
Mas as constatações do debate de abertura são muito úteis, especialmente sob a ótica do mercado brasileiro, onde a indústria, apesar dos seus 15 anos de idade, ainda não mostra o vigor da adolescência.
A primeira lição que o mercado de cabo norte-americano precisou vencer foi a concorrência da TV aberta. Os desafios eram basicamente os mesmos que o Brasil enfrentou e ainda enfrenta: a audiência estava concentrada nas redes abertas (ainda que nos EUA fossem três que dividissem, em porções mais ou menos parecidas, o total de telespectadores), havia imensa pressão regulatória para que o cabo não tirasse a audiência dos broadcasters, havia resistência das empresas detentoras de postes.
O ponto de inflexão, ou "tipping point" (Malcom Gadwell, autor do livro "Tipping Point", moderou o show de abertura da Cable 2006), foi justamente quando a TV por assinatura começou a se diferenciar da TV aberta, ganhando audiência. Brian Lamb, hoje CEO da C-SPAN, um dos mais antigos e respeitados executivos da indústria de TV a cabo nos EUA, resumiu a questão: "Os broadcasters tentaram, por muito tempo, convencer a sociedade de que apenas eles eram suficientes, de que eles ofereciam tudo. Mas eles não se deram conta da importância que havia para a sociedade a possibilidade de passar de três, quatro canais que eram assistidos, para 50 ou mais". Exemplos de ousadia: a própria C-SPAN (que passou a transmitir as atividades do congresso na década de 70), a HBO, que rompeu paradigmas inclusive regulatórios para levar filmes em primeira mão aos assinantes do cabo, e a MTV, que foi a primeira a fazer uma rede pensando apenas no público jovem. ESPN (a primeira rede esportiva) e a CNN (a primeira rede de notícias 24 horas) também são lembrados como exemplo.
"As pessoas não gostavam dos operadores de cabo porque cobrávamos dos assinantes por algo que eles pensavam que poderiam receber de graça. Com o tempo, descobriram que não era a mesma coisa e hoje aceitam pagar, porque percebem que o serviço tem valor", diz Robert Miron, hoje CEO da Newhouse Communications, outro veterano da indústria de cabo que falou no debate de abertura.

Futuro

O maior desafio para o futuro do mercado de TV a cabo nos EUA parece ser entender o que a próxima geração de consumidores demandará em termos de consumo de mídia. "Os jovens não saem mais de casa sem estarem conectados a um celular, e não ficam em casa sem interagir com outras pessoas. Será preciso estar atento a esse movimento. Mas não falo de sermos literais, de fazermos o que já fazemos apenas em novas plataformas. É preciso fazer diferente", diz Geraldine Laybourne, CEO da programadora Oxigen. "Os jovens se comportam de forma diferente do que os consumidores de hoje, mas a TV deve ter o seu espaço", analisa Miron. "Talvez agora seja a hora da interatividade, que tanto prometemos, acontecer", diz John Hendricks, chairman da Discovery.

Comentários

Nenhum comentário para esta notícia.

Deixe o seu comentário!

© 0-2017 Save Produções Editoriais. Todos os direitos reservados.
Top