Chapter 11
12/02/2004, 15:08

Processo em Nova York revela detalhes da reestruturação da Globopar

POR SAMUEL POSSEBON

Dois documentos importantes do processo de renegociação da Globopar foram revelados pelos três credores que pedem, na Justiça de Nova York, o enquadramento deste processo nas regras do Chapter 11 do Bankruptcy Code norte-americano (uma espécie de legislação de falências). Os fundos abriram os documentos como subsídios à sua argumentação de resposta à defesa do grupo Globo. O fato é que a Globopar está extremamente insatisfeita com a forma de ação dos fundos que, segundo ela, são coordenados pelo W.R. Huff, a quem se dirige como um "vulture fund" (fundo abutre). Procurada por esse noticiário, a empresa disse que "a resposta da Huff contém afirmações totalmente falsas e interpretações intencionalmente errôneas dos fatos" e que está tomando medidas judiciais. A resposta da Globopar, na íntegra, segue em nota separada.
Mas o que trazem as cartas reveladas pelos fundos credores para deixarem o grupo Globo tão insatisfeito? São, na verdade, duas cartas, cada uma delas enviada por um dos comitês de credores do grupo, em resposta à proposta feita pela Globopar no dia 18 de dezembro. Estas cartas trazem dados confidenciais do processo de negociação e mostram o grau de dificuldade que o grupo Globo vem enfrentando para acertar a sua situação de endividamento. Dão também mais detalhes sobre as propostas em negociação.
As cartas, que foram enviadas à Globopar, deixam claro a preocupação e, de certa forma, a insatisfação dos credores, que querem propostas mais efetivas em relação a uma série de pontos que haviam sido solicitados anteriormente. Os dois comitês de credores (de bancos e de detentores dos bonds) colocaram em setembro algumas exigências e consideram que a proposta feita pela Globopar em dezembro, em apenas uma página, representa um retrocesso em relação ao que havia sido colocado pelos bancos, ainda que seja um avanço em relação à primeira proposta do grupo Globo, feita em maio de 2003.

Exigências

Entre os pontos em discussão, alguns são interessantes. Aparentemente, os credores querem uma participação em uma nova empresa a ser criada após a reestruturação da Globo, que é chamada pelos bancos de "newly combined TV Globo entity". Seria uma espécie de Globo S/A, com junção da Globopar e da TV Globo, especula-se.
Os credores esperam também aportes dos acionistas (atuais e novos) na Globopar, inclusão na renegociação de pontos hoje não garantidos pela TV Globo, querem um pacote de compromissos amplos, exigem estabelecimento de padrões de governança corporativa e desejam saber quanto o grupo Globo vai reservar para uma espécie um leilão reverso (Dutch Auction) da sua dívida. Todos estes pontos foram pedidos pelos credores em setembro e não tiveram uma contra-proposta na apresentação do grupo Globo de dezembro.
Além disso, os credores, nas cartas, revelam que a proposta feita pela Globopar em dezembro reduziu as possibilidades de recuperação dos créditos, uma vez que trouxe taxas de juros ainda menores e prazos de maturação da dívida mais longos. A Globopar também ainda não apresentou, segundo as cartas dos credores, detalhes sobre percentuais da Sky do Brasil e Net Serviços que serão mantidos após o processo de reestruturação de cada uma das operadoras de TV paga e, principalmente, qual o valor destas participações. Os credores também pedem que o grupo Globo apresente a atualização do business-plan para os próximos dez anos e o orçamento de 2004, e reclamam do fato de que as propostas trazidas para negociação não contemplam a melhora nos indicadores macroeconômicos brasileiros nem no desempenho do grupo.

Detalhes em fevereiro

Os credores reconhecem, nas correspondências, que muitos desses pontos ficaram propositalmente apresentados de forma incompleta na apresentação feita pelo grupo Globo em dezembro. Na ocasião, a Globopar se comprometeu a suplementar as informações em fevereiro. As cartas do comitê de bancos e comitê de bondholders são de 15 e 14 de janeiro, respectivamente, e têm conteúdos muito parecidos.
Os credores ressaltam, de acordo com as cartas, que é preciso mais esforço em relação a esses pontos incompletos para que a renegociação tenha algum sentido prático.
Sobre a atitude dos fundos credores de revelar estas cartas confidenciais, o grupo Globo diz que se trata de uma "tentativa de um credor isolado de tumultuar o processo de negociação e obter posição de vantagem em relação aos demais credores. Esse estilo de atuação é típico deste fundo abutre, que já buscou exercê-lo em situações similares outros países da América Latina, notadamente no México e na Argentina".
Sobre a relação com os comitês, a Globopar diz que "continua e pretende continuar com suas negociações produtivas com os demais credores, de forma a chegarmos rapidamente a uma solução que seja benéfica para todas as partes envolvidas".

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