Entrevista
12/02/2016, 15:22

Roteiristas buscam protagonismo e participação nos direitos de exibição

Há dois anos à frente da Associação dos Roteiristas (AR), o presidente Ricardo Hofstetter diz que é o momento dos autores se organizarem e buscarem, junto às empresas e autoridades, mais direitos e uma melhor representação. Querem, entre outras coisas, direitos sobre a exibição das obras, nos moldes do que também pedem hoje os diretores, reunidos na DBCA, recém fundada no Brasil.

Há mais de 20 anos escrevendo para a Globo, Hofstetter tem no currículo programas e novelas como "Chico Anysio Show", "Malhação", "Malhação ID", "Beleza pura" e "Além do Horizonte", entre outros trabalhos. Paralelamente é autor de romances, longas-metragens e peças de teatro.

Nesta entrevista, ele fala deste e de outros temas de interesse dos autores nacionais.

TELA VIVA NEWS – Quais são hoje as principais pautas da AR?

Ricardo Hofstetter – Hoje o que é fundamental, e no que estou investindo, é dar força política e representatividade à AR. Por isso estamos nos juntando à AC (Autores de Cinema). Ou seja, as duas únicas associações de roteiristas vão se unir. Falta definir como isso se dará operacionalmente.

Hoje não temos força política, precisamos fazer lobby, no Congresso, em Brasília. E ter representatividade. A classe dos roteiristas é muito desunida.

Por que?

É um pouco pela realidade do mercado. Até uns 20 anos atrás não havia mercado de roteiristas. Ou você trabalhava na Globo ou não trabalhava, ficava buscando trabalhos aqui e ali, um filme etc. Quem estava na Globo estava bem, não se preocupava com essas questões, e quem não estava só se preocupava em arrumar trabalho.

Hoje há um mercado. Ainda é dependente, se acabar o dinheiro da Ancine (com a ameaça das teles de não pagar a Condecine) ele desaba, mas está aí, as pessoas estão trabalhando, as produtoras estão contratando. Quem contratava roteirista antigamente fora a Globo?

Agora, muitos roteiristas novos estão nos procurando e se queixando que o mercado faz o que quer. A profissão é muito desvalorizada, muita gente nem sabe o que fazemos. Parece maluquice, mas há pessoas que acham que são os atores que criam as falas. Que não tem alguém que escreve aquilo. Uma vez vi um livro chamado "Grandes Frases do Cinema", e apareciam frases, por exemplo, do Humphrey Bogart. Como se ele que tivesse dito aquilo, e não o roteirista que escreveu o filme (risos)!

"A profissão é muito desvalorizada, muita gente nem sabe o que fazemos. Parece maluquice, mas há pessoas que acham que são os atores que criam as falas"

"A profissão é muito desvalorizada, muita gente nem sabe o que fazemos. Parece maluquice, mas há pessoas que acham que são os atores que criam as falas"

Como se daria esse reconhecimento?

Primeiro quero atrair grandes nomes, como fez o Procure Saber (associação de músicos que faz lobby em questões de interesse comum da classe, como embates com o Ecad e outros órgãos). Eles têm um lobby forte, com nomes como Roberto Carlos, Caetano Veloso etc. Quando precisa de alguma coisa, chamam esses caras. Quero fazer o mesmo, levar os grandes nomes da TV, Manoel Carlos, Gilberto Braga, Walcyr Carrasco, Gloria Perez, e principalmente fazer pressão em Brasília, por exemplo para a gente participar dos editais.

Até pouco tempo atrás, não havia sequer edital de desenvolvimento. O roteirista fazia o trabalho de graça para o produtor, e só ia receber se o projeto fosse aprovado. Hoje melhorou muito. Mas queremos participar da elaboração dos editais.

Que tipo de problemas vocês detectam?

Ainda acontecem absurdos, como (na avaliação de) uma série de TV se valorizar mais o currículo do diretor do que o do roteirista. O canal CinebrasilTV fez um edital em que o currículo do roteirista não era avaliado, só o do diretor. Mandamos uma reclamação e eles assumiram o erro, foram legais e corrigiram.

Queremos ter presença, sermos ouvidos antes de aparecerem estes problemas, senão depois você só pode ficar reclamando.

Outra coisa, que é uma luta antiga, é o direito de exibição. Nossa legislação é Kafka puro. Ela diz que os autores originários de uma obra original são o roteirista, o diretor e o músico. Mas só os músicos recebem direitos de exibição (remuneração sobre cada execução da obra). Para isso precisamos ter lobby em Brasília. Os produtores são articulados, organizados, fazem o lobby deles super bem feito. Você vê que até nos núcleos criativos (programa em que o Fundo Setorial do Audiovisual apoia grupos de desenvolvimento de projetos) os produtores ganham dinheiro, e ganham mais do que os criadores! Ficam com 60%. Por que? O cara que tá criando mesmo ganha só 40%.

"Nossa legislação é Kafka puro. Ela diz que os autores originários de uma obra original são o roteirista, o diretor e o músico. Mas só os músicos recebem direitos de exibição"

"Nossa legislação é Kafka puro. Ela diz que os autores originários de uma obra original são o roteirista, o diretor e o músico. Mas só os músicos recebem direitos de exibição"

A gente quer estimular também a participação, e aqui tem uma "mea culpa" nossa. A maioria dos roteiristas é muito acomodada. Se você acha que os produtores estão te sacaneando, vai lá e cria uma produtora. É difícil, mas é melhor do que só reclamar.

A gente tinha na AR esse ranço de só reclamar, mas na hora de fazer, ninguém fazia.

Outra coisa que queremos é criar no Brasil a figura do agente. Vamos trazer agentes americanos para formar este tipo de profissional no Brasil.

Qual o benefício de ter agentes trabalhando aqui?

O agente que nós imaginamos é um cara que entende de contrato, sabe que tem coisas que você não pode ceder, olha se tem itens abusivos. Um garoto que está começando, ou eu mesmo, não sabe ler aquilo, acha que "vão me pagar, então tudo bem". Tem que ter um cara que conhece o mercado.

A gente trabalha muito em casa, sozinho. Os diretores e produtores ganharam muito poder porque estão lá, circulando, conversando. A gente fica trancado, então perde muito esse contato, que é fundamental.

"O agente que nós imaginamos é um cara que entende de contrato, sabe que tem coisas que você não pode ceder, olha se tem itens abusivos"

"O agente que nós imaginamos é um cara que entende de contrato, sabe que tem coisas que você não pode ceder, olha se tem itens abusivos"

Escrever dá muito trabalho, você perde muito tempo, leva um ano ou dois num romance, três, quatro meses num longa. Não dá tempo de fazer essas outras coisas, se articular.

Então se tiver uma pessoa que pega seu roteiro e leva nas produtoras, faz contato com atores, leva ao mercado, ajuda muito. Um cara que venda os nossos trabalhos. Tá cheio de roteirista com trabalho engavetado, não tem como circular, não tem conhecimento de mercado.

Essa figura existe pra ator e atriz, e na literatura, que faz a ponte entre autor e editoras. Mas no audiovisual não tem ainda. Então queremos formar esses profissionais no Brasil.

E a remuneração do roteirista, como anda? Melhorou? Ou ainda é uma questão?

O profissional está sendo muito mal remunerado. Ainda acontece muita sacanagem. Dizem que falta roteirista no Brasil. Falta pelo preço que eles querem pagar! Pagam muito mal e quem não tem já um nome, uma estrada, acaba topando, porque é uma chance. Tem roteirista ganhando R$ 1 mil, R$ 2 mil. Às vezes a produtora, em um projeto de R$ 1 milhão, quer pagar R$ 5 mil pro roteirista. Pior, entram no edital com um grande nome, e depois que ganham trocam por um iniciante e pagam uma mixaria. É uma profissão que apanha muito ainda.

"Dizem que falta roteirista no Brasil. Falta pelo preço que eles querem pagar!"

"Dizem que falta roteirista no Brasil. Falta pelo preço que eles querem pagar!"

Na AR temos uma tabela de preços, mas é difícil precificar, porque o leque de trabalhos é muito amplo. Mas é uma referência. Numa produção de R$ 1 milhão, o roteirista devia ganhar no mínimo 10%.

Temos também uns contratos-padrão, mas estão desatualizados, vamos arrumar. Serve pro cara ver pelo menos que tipo de direitos ele deve ou não ceder.

Como vêem a questão do VOD, dos direitos do autor nessas plataformas?

A gente faz parte do grupo de trabalho do Ministério da Cultura que está discutindo o digital. As plataformas como Netflix não pagam nada de direito autoral, ficam fora do Brasil. Temos uma assessora jurídica agora, a Carla Brito, sabe muito de negociação, tem muita experiência em direito autoral. É um debate moderno, não tem aquele ranço de "luta", é negociação. Não temos inimigos, não tem chororô.

A figura do showrunner cabe no Brasil? Vê um cenário aqui em que o roteirista seja o responsável principal de uma obra?

A Globo já trabalha assim há muito tempo. Quando tem briga entre o diretor e o autor de uma novela, sai o diretor. O cara (roteirista) é que inventou a história. Mesmo no cinema os diretores conseguiram uma predominância que não faz sentido. Nem vou discutir, porque é uma coisa já bem estabelecida, mas muitas vezes o roteiro é bem mais importante do que a direção. Eu particularmente acho que é sempre mais importante.

Tirando a Globo, está começando a ter esse reconhecimento. As produtoras que entenderem isso vão se dar bem. A Globo fez sucesso porque sempre valorizou o texto. Nunca houve um diretor que fosse mais importante que o autor. Foram inteligentes, viram que precisa ter um texto pra segurar o público. Não é o diretor que segura. Até o ator é mais importante pra segurar o público que o diretor.

As que ficarem falando "dá o roteiro pro meu sobrinho escrever, que ele fez Letras", vão se dar mal. Vão produzir, se tiverem bons contatos, conseguirão trabalhar, mas não vão criar sucessos.

Comentários

9 Comentários

  1. Peron de Souza disse:

    Fantástica essa entrevista, aula!!! N

  2. Henrique Gouvêa disse:

    Os roteiristas brasileiros são muito ruims. Fim de papo. Que apareçam novos.

  3. Leivas disse:

    Uma aula sem dúvida. Quero mais entrevistas desse porte. É possível o email de Ricardo Hofstetter? Gostaria de tirar uma dúvida. Mui grato

  4. LUCIANA MEIRELES disse:

    Muito esclarecedora, esta entrevista. Tirou algumas dúvidas, e jogou luzes sobre qual é, afinal, a postura atual do nosso órgão de classe mais representativo. Legal ele ressaltar a necessidade de termos um lobby, porque do jeito que tá é asfixiante trabalhar. A gente frequentemente recebe cada proposta de remuneração, que parecem insultos.

  5. Regia disse:

    Discordo quando ele diz:

    "Até pouco tempo atrás, não havia sequer edital de desenvolvimento. O roteirista fazia o trabalho de graça para o produtor, e só ia receber se o projeto fosse aprovado. Hoje melhorou muito. Mas queremos participar da elaboração dos editais."

    Melhorou muito? Nao existe edital de desenvolvimento que o roteirista possa participar e ganhar. Esta sempre condicionado à travessia pela produtora. É a produtora que captura o roteiro/roteirista, usa o roteiro e participa do edital onde o roteirista é o boi de piranha.

    Discordo ainda de quando ele elogia:

    "O canal CinebrasilTV fez um edital em que o currículo do roteirista não era avaliado, só o do diretor. Mandamos uma reclamação e eles assumiram o erro, foram legais e corrigiram"

    Corrigiram o que? O que devia ser corrigido é a necessidade de CV em editais, que limita a entrada aos que já estão no mercado. ROTEIRO DEVE CONCORRER SOB PSEUDONIMO pois o anonimato é a unica garantia que será a qualidade da história e não o nome de quem assina que faz jus a uma premiação.

    E por fim, discordo muitíssimo quando ele opina que:

    A gente quer estimular também a participação, e aqui tem uma "mea culpa" nossa. A maioria dos roteiristas é muito acomodada. Se você acha que os produtores estão te sacaneando, vai lá e cria uma produtora. É difícil, mas é melhor do que só reclamar.

    Roteirista é roteirista. NInguém espera que o pintor de quadro tenha de montar uma fábrica de tintas, ou de telas, ou que seja dono de todas as galerias para poder desenvolver seu trabalho único. A criação de uma produtora envolve a contratação do office-boy, e o pagamento de um aluguel de um imóvel comercial, e um contador, e uma secretaria, e a vaga da garagem e por ai vai.. e isto para dizer o minimo… se todo roteirista tiver de criar uma produtora, teremos produtoras e continuaremos sem roteiristas.

    Então presidente da AR, se toque e ao menos fale menos besteira.

  6. Rodrigo Santos disse:

    Muito interessante a entrevista! Esclarece muito quanto aos motivos de certos problemas do mercado de audiovisual brasileiro.

  7. Ana Dantas disse:

    Ricardo Hofstetter falou o que estava entalado na boca de muito roteirista. Quero ver na prática o que a AR fará daqui pra frente. Concordo em gênero, número e grau em tudo o que ele disse. Só quem vive diariamente uma luta insana é que sabe o que acontece na prática. E me desculpem os ignorantes, mas o Brasil tem bons roteiristas sim. Inclusive ganhando prêmios internacionais. Chegou a hora de acabar com essa bobagem de dizer que o Brasil não tem bons roteiristas, provavelmente é gente que está acostumado a consumir enlatado diariamente e perdeu a noção da crítica intrínseca da história. Ou, no mínimo, é um perdedor mal sucedido na profissão.

  8. Marcos Maia disse:

    Como um dirigente de uma categoria declara que "não tem aquele ranço de 'luta'. É negociação" Onde ele viu este filme, meu deus? Claro que para sermos bem sucedidos em uma negociação temos que estar preparados para ações, mobilizações etc. E o nome disso chama-se luta. Se ele não gosta do termo "inimigo" que não se esqueça que em última instância existe a contradição inevitável: empregados X empregadores. Não há roteiro com final feliz todos, meu caro Ricardo.

  9. Jessé disse:

    Gostaria de saber a quem ele se refere com "a gente" participar dos editais… Novos roteiristas estão inclusos ou a galera já consagrada pela Globo? Restou essa dúvida.

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