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Se vender a Portugal Telecom, Oi recupera o que gastou, mas ainda terá desafios
segunda-feira, 03 de novembro de 2014 , 18h59 | POR SAMUEL POSSEBON

A oferta da Altice pelos ativos da Portugal Telecom pode parecer um valor elevado. Afinal, são 7 bilhões de euros, contra cerca de 1,8 bilhão de euros que foi o valor dado aos mesmos ativos quando a Portugal Telecom foi absorvida pela Oi, há pouco mais de um ano. Mas a conta mostra que hoje a Portugal Telecom está saindo, caso a operação de venda seja aprovada, por aproximadamente o mesmo preço que "custou" para a Oi. Quando Oi e Portugal Telecom formalizaram a fusão, o valor dos ativos da PT foi de 1,8 bilhão de euros. Mas a fusão trouxe ainda uma dívida pesada para dentro da Oi.

Em dezembro de 2013, a dívida líquida da PT era de aproximadamente 4,6 bilhões de euros. Essa dívida aumentou quando ficou claro que os investimentos em papeis da Rioforte resultariam em calote. Ou seja, é como se a dívida líquida fosse de 5,5 bilhões de euros. Isso significa que, no final das contas, entre dívida e valor dos ativos, a Portugal Telecom entrou na Oi por 7,3 bilhões de euros, e vai ser vendida por 7 bilhões, sendo que a dívida permanece na Oi.

Pode-se argumentar que a Altice não está comprando as operações africanas, e que a Oi poderia ainda ter uma receita complementar vendendo esses ativos, que geram cerca de 70 milhões de euros em EBITDA anualmente. No entanto, o emaranhado societário e a dificuldade que a Oi terá para lidar com essas operações são gigantescos, já que há um litígio com os sócios portugueses e entre os sócios há pessoas com forte ligação com os governos locais.

Outro problema para a Oi são as sinergias. Quando a fusão entre Oi e Portugal Telecom foi proposta, anunciou-se ao mercado que isso geraria, no longo prazo, sinergias de R$ 5,5 bilhões. Por sinergia entenda-se, sobretudo, cortes de custos e ganhos operacionais decorrentes na redução de pessoal, ganhos de escala na compra de equipamentos e planejamento tributário. A promessa desses ganhos futuros foi importante para que a Oi levantasse, em mercado, cerca de R$ 8 bilhões no processo de capitalização. Ao se desfazer dos ativos da Portugal Telecom e sair daquele país, as sinergias deixam de existir. Será preciso, portanto, convencer os investidores que a redução da dívida compensa. Lembrando que nos EUA a SEC (órgão de controle do mercado de valores mobiliários local) está analisando o caso, e que no Brasil também está sob a lupa da CVM.

Dívida

Não se sabe se uma eventual venda da Portugal Telecom para a Altice resultaria em uma redução integral da dívida. Hoje a Oi deve R$ 46 bilhões. Se tudo o que vier da venda para a Altice for usado para reduzir a dívida, ela cairia para cerca de R$ 26 bilhões. Em termos relativos, o Credit Suisse estima que a Oi teria uma relação dívida/EBITDA na casa de 3,4 vezes, o que é aproximadamente o que tinha antes da fusão com a Portugal Telecom, o que já era um múltiplo considerado elevado.

Mas seria preciso garantir que 100% dos recursos da venda fossem para esse fim. A imprensa portuguesa destaca que os acionistas portugueses teriam poder de veto sobre a operação, razão pela qual a Altice teria iniciado as conversas com eles, para só então fazer uma proposta à Oi. Faz sentido. Mas estes mesmos acionistas portugueses teriam interesse em permanecer acionistas de uma empresa que só opera no Brasil (e na África)? Eles não poderiam usar o poder de veto para forçar a Oi a distribuir dividendos ou forçá-la a recomprar pelo menos parte das ações controladas por estas empresas portuguesas (e que representam cerca de 22% do capital da Oi)? É uma especulação possível, ainda mais considerando que pelo menos um dos acionistas da Oi (o grupo Espírito Santo) está em complicada situação financeira.

Também existe a especulação, ainda mais distante, sobre o uso de parte desses recursos para uma oferta para a compra da TIM. Esse é o projeto dos sonhos do BTG, mas que ainda precisa ser alinhavado com Vivo e Claro e, sobretudo, precisa convencer a Telecom Italia. Sem falar no governo brasileiro que já sinalizou: qualquer oferta nesse sentido implicaria uma complicada revisão do Plano Geral de Autorizações (o que é uma decisão que dificilmente seria tomada sem uma indicação política) e no estabelecimento de novos tetos de frequência para as operações, o que demanda muito tempo de análise regulatória e concorrencial.

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