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Operação Satiagraha
À CPI, Dantas diz o contrário do que disse para a Justiça de NY
quinta-feira, 14 de agosto de 2008 , 01h02 | POR MARIANA MAZZA E SAMUEL POSSEBON

Daniel Dantas, que depôs nesta quarta, 13, à CPI das Interceptações Clandestinas, fez afirmações aos deputados que são diametralmente opostas àquelas feitas pelo próprio banqueiro à Justiça de Nova York quando se defendia do processo movido pelo Citibank.
À CPI, Dantas disse que as investigações da Operação Satiagraha teriam como objetivo oculto o interesse de "setores do governo" que estariam descontentes com o fato de haver uma negociação para a fusão entre Brasil Telecom e Oi, o que tiraria a BrT do controle destes "setores". A Satiagraha faria parte então, na interpretação do banqueiro, de uma orquestração para criar constrangimentos à fusão.
Mas esse argumento é o contrário daquele usado pelo grupo Opportunity em julho de 2007 na Justiça de Nova York. Na ocasião, ao acusar os fundos de pensão e o Citibank de conspirarem contra ele, Dantas descreveu: "(…) os fundos de pensão abriram discussões com a Telemar, onde os fundos têm participação de controle. Como já dissemos, a venda da Brasil Telecom para a Telemar (Oi) é proibida. Os fundos estão, contudo, buscando a venda da Brasil Telecom para indivíduos politicamente favorecidos e entidades, tais como os controladores da Telemar".

Lulinha

As acusações feitas pelo Opportunity contra a fusão entre Telemar e Brasil Telecom, com insinuações de favorecimentos políticos e corrupção, seguem em vários trechos do documento apresentados à Justiça de Nova York: "a Telemar armou a mudança das leis que proíbem a venda da Brasil Telecom para a Telemar tentando influenciar o governo brasileiro por meio de um investimento com sobrepreço muito favorável (e corrupto) na empresa na qual o filho do presidente do Brasil tinha participação. O esquema, no fim, desabou quando o investimento da Telemar na empresa do filho do presidente e os esforços para mudar a lei permitindo à Telemar comprar a Brasil Telecom vieram a público". Dantas disse ainda, em 2007, que "o Citibank e os esforços dos fundos para avançar com o objetivo político da venda da Brasil Telecom para a Telemar continuam até hoje. Por exemplo, novos esforços para mudar a lei que proíbe a transação da Telemar estão em andamento e esperam que o esquema político seja reavivado". À CPI, contudo, Dantas defendeu a fusão entre Oi e Brasil Telecom e disse que sempre defendeu a operação. De fato, Dantas, em entrevista ao Jornal Valor, em 2001, defendeu a fusão, e também tentou entrar no controle da Telemar adquirindo a participação da Inepar, ato considerado irregular pela Anatel, que determinou a perda dos poderes de controle destas ações adquiridas pelo Opportunity em 1999. As declarações de Dantas à Justiça de Nova York estão disponíveis no site www.teletime.com.br/arquivos/oppf_answer.zip.
O processo foi encerrado este ano depois de acordo entre o Opportunity, Citibank e os fundos de pensão.

Durou pouco

Dantas é um dos maiores beneficiados com a operação de venda do controle da Brasil Telecom para a Telemar, operação esta defendida pelos fundos e pelo governo. Ele receberá prêmio de controle por todas as suas ações (mesmo aquelas que não faziam parte dos acordos de acionista entre controladores) e embolsará perto de US$ 1 bilhão. Os fundos de pensão, o Citibank, a Brasil Telecom e os controladores da Oi (incluindo a Andrade Gutierrez) ainda acertaram com Dantas um acordo judicial pelo qual a BrT, os fundos e o Citi desistem de todas as demandas na Justiça contra Dantas e a Oi paga ao banqueiro R$ 145 milhões (valor já desembolsado).
Os fundos de pensão e o Citi vêem agora, menos de quatro meses após o armistício, Dantas voltar a acusá-los.
Os fundos poderiam prever que isso aconteceria, já que a Telecom Italia, no começo de 2005, também pagou ao banqueiro 50 milhões de euros pelo fim das agressões judiciais e hoje é constantemente acusada por Dantas de espionagem, conspiração e corrupção.

Sem consistência

Não é a primeira vez que Daniel Dantas diz uma coisa a uma CPI (protegido por habeas corpus, que o libera de dizer a verdade) e cai em contradição com alguma declaração dada oficialmente. Outro caso aconteceu em 2005, durante a CPMI dos Correios (que investigou o mensalão).
Naquela ocasião, Daniel Dantas depôs na qualidade de informante e foi afirmativo ao falar que apenas teve conhecimento do conteúdo das investigações do caso Kroll em uma apresentação feita em Nova York, na sede do Citibank, e que foi orientado por seus advogados, quando a Brasil Telecom contratou a Kroll para fazer investigações, a não ter acesso aos conteúdos dos trabalhos. Acontece que em depoimento à Polícia Federal referente à Operação Chacal (que apurou justamente as investigações da Kroll), em abril de 2005, Dantas afirmou ter recebido relatório elaborado pela empresa de investigação possivelmente em 2000. Ele também admitiu pelo menos duas reuniões no Brasil com pessoas da Kroll. A ex-presidente da Brasil Telecom, Carla Cico, que também falou à PF, disse ainda ter havido uma reunião com a presença dela (Cico) e Dantas para tratar de questões contratuais com a Kroll. Durante seu depoimento desta quarta, 13, Dantas disse que foi a Brasil Telecom quem contratou a empresa.

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