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Caso Opportunity
Dantas faz ilações sobre teles concorrentes
quinta-feira, 22 de setembro de 2005 , 05h25 | POR SAMUEL POSSEBON

Daniel Dantas, que abriu seu depoimento às CPIs dos Correios e do Mensalão nesta quarta, 21, qualificando-se como "o principal executivo do Opportunity Fund", mostrou uma estratégia de auto-proteção que poucos esperavam. Dantas defende a tese de que foi vítima "constante e continuamente" de interferências do governo junto aos fundos de pensão contra seus interesses, pressões estas que vêm desde 2000. E em diversos momentos insinuou que os beneficiados das ações de interferência do governo contra o Opportunity tenham sido a Telemar, a Telmex, a Telefônica, a Telecom Italia e o Citibank, além dos próprios fundos de pensão. Para os que esperavam que Dantas trouxesse evidências em relação ao chamado "mensalão", não houve fatos novos. "O que me surpreende é a disposição de se buscar na parte prejudicada a origem dos recursos (do mensalão)", disse Dantas, que também afirmou: "se alguém tivesse que pagar (ao esquema), deveriam ser os apoiados (pelo governo) e não os discriminados".

CRT

Dantas retomou um discurso que já sustenta há vários anos: o de que as disputas com os fundos de pensão começaram em 2000, quando as fundações, segundo suas palavras, apoiaram a decisão da Telecom Italia bancando um preço US$ 250 milhões mais alto pela compra da CRT, então controlada pela Telefônica. "A aquisição da CRT se deu numa sexta à noite, na sede da Anatel", disse, referindo-se ao ano de 2000. Pela primeira vez Dantas, em público, acusou diretamente não só os fundos de pensão e a Telecom Italia de terem forçado o negócio com a Telefônica, mas também o então presidente do BNDES, Andrea Calabi, e o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga. "A Telecom Italia nos deu a entender que se não fechássemos a compra da CRT pelo preço mais alto, sofreríamos retaliações dos fundos". Sobre o ex-ministro Pimenta da Veiga, Dantas disse que "ele não fez pressão diretamente em relação ao preço, mas pressionou para que a transação fosse fechada rapidamente". Segundo Dantas, com essa pressão, uma situação de negociação "distorcida pela legislação", mas que era claramente vantajosa para a parte compradora (a BrT, "que era na prática a única candidata") se tornou uma situação de vantagem para a parte vendedora (Telefônica).

Contestação

Dantas foi contestado em relação a suas afirmações. O deputado Jorge Bittar (PT/RJ) afirmou que "os fundos nunca decidiram nas assembléias nada em relação à CRT", mostrando as atas das AGEs na ocasião, em que apenas Telecom Italia e Opportunity decidiram. "O Opportunity tinha o controle do conselho de administração. Então, como deixou a venda ser feita nessas condições tão desvantajosas?", indagou Bittar. Dantas tentou dar uma resposta justificando que estava pressionado por uma liberação de verba do BNDES para pagar a parcela da privatização, verba essa que só saiu, segundo ele, depois do negócio. "E a Telecom Italia também ameaçava não pagar seu aporte de capital". O raciocínio do banqueiro, contudo, não ficou claro.
Outro ponto que chamou a atenção de parlamentares foi em relação aos processos movidos posteriormente pela Brasil Telecom contra a Telecom Italia por conta da compra da CRT. Carlos Abicalil (PT/MT) chamou a atenção para o fato de que as ações foram então retiradas, depois que o Opportunity recebeu US$ 65 milhões na negociação com a Telecom Italia (em abril deste ano). Na mesma linha de raciocínio foi José Eduardo Cardozo (PT/SP), que chegou a pedir ao Ministério Público investigação em relação à compra da CRT e que se disse surpreendido pelo acordo com a Telecom Italia. "Acho estranho que uma ação da Brasil Telecom tenha sido retirada quando o Opportunity fechou um negócio e recebeu dinheiro. Ou seja, os fundos de pensão é que ficaram no prejuízo? E a empresa?"
O deputado Carlos Abicalil questionou Dantas se os fundos não teriam direito de vetar em conselho a suspensão das ações contra a Telecom Italia, já que isso era do interesse da BrT e que apenas o Opportunity havia recebido os R$ 65 milhões de compensação. Daniel Dantas disse não ter conhecimento se essa era uma prerrogativa do conselho de administração. Mais tarde, quando José Eduardo Cardozo voltou ao tema, Dantas mostrou-se mais familiarizado com os trâmites do conselho da Brasil Telecom ao afirmar que os fundos, em 2000, votaram contra o início das ações.
O banqueiro alegou ainda que a negociação do Opportunity com a Telecom Italia para a retirada das ações foi paralela a uma outra negociação do mesmo tipo, esta fechada entre a BrT e a TIM. No caso do Opportunity, disse Dantas, o pagamento foram os US$ 65 milhões. No caso da outra negociação, a compensação estaria na fusão das operações, afirmou, e disse ainda que as ações não haviam sido retiradas porque estavam pendentes de um "release do trustee", provavelmente se referindo à empresa Trust que montou para abrigar as pendências judiciais. A trust é tocada por Mangabeira Unger, sob ordens do Opportunity. Os deputados não questionaram Dantas sobre o fato de o acordo da fusão entre BrT e TIM ter sido anunciado simultaneamente ao acordo de venda das participações do Opportunity à Telecom Italia com a subseqüente retirada das ações na justiça, inclusive a do caso CRT.

Apoio à Telmex

Além do caso da CRT, que segundo Dantas exemplifica interferência do governo em seus negócios, há um outro caso dessa suposta interferência. Ele afirma que seu sócio Arthur Carvalho manteve reuniões com o então ministro Gushiken e com o presidente do BNDES (na época, Carlos Lessa) para tratar da compra da Embratel no período em que as três concessionárias locais se juntaram em um consórcio (Consórcio Calais) que visava adquirir a tele. Ele disse que reuniões desse tipo aconteciam na Secom e pelo menos uma vez no Planalto e que Gushiken apoiava o projeto das três teles. "Foi a única época em que a pressão contra nossos interesses diminuíram um pouco". Dantas afirmou que "as três companhias fixas procuraram mas não conseguiram uma manifestação da Anatel de aprovação da operação". Lembrou que na véspera da decisão da Corte de Falências de Nova York sobre a venda da Embratel houve a notícia da invasão na sede da Telefônica pela Polícia Federal e a divulgação dos conteúdos dos documentos apreendidos. "Tenho um sentimento de que houve interferência do governo em favor da Telmex", disse, lembrando que estava orientado pelos seus advogados a não expressar opiniões. Dantas não explicou por que chegou a essa conclusão mesmo depois de ter afirmado que Gushiken e Carlos Lessa apoiariam a iniciativa das três teles, e não os mexicanos.

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