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Resultado da venda da Intelig pode mudar modelo do setor
quarta-feira, 26 de novembro de 2003 , 09h53 | POR SAMUEL POSSEBON

Tudo indica que o processo de venda da Intelig está muito próximo de ser concluído. Do ponto de vista dos acionistas, já existe uma proposta firme na mesa: dos investidores liderados pelo ex-CEO da empresa José Carlos Cunha, que apresentou à Sprint, National Grid e France Telecom suas condições há algumas semanas. A bola está, agora, com a Alcatel, principal credora da Intelig (controladora de uma dívida de mais de US$ 180 milhões). Segundo informações de mercado, a fabricante francesa estaria ainda tentando viabilizar uma proposta do consórcio formado por Brasil Telecom e Telemar. Por trás das negociações, está um jogo muito mais complexo que envolve argumentos supostamente nacionalistas, questões societárias, contratos de fornecimento futuros e a manutenção do modelo brasileiro.
"Há o risco de que a oferta da Brasil Telecom e da Telemar vença. São duas condições separadas. Nós, acredito, temos a preferência dos acionistas da Intelig. Eles têm a preferência do credor francês", diz José Carlos Cunha, presidente do consórcio de investidores internacionais.
Com o anúncio de intenção de venda da Embratel manifestada pela MCI, a disputa ficou mais complexa, já que o fortalecimento da Telmex (principal candidato à compra dos ativos da tele de longa distância) desperta argumentos, dentro e fora do governo, de "risco à soberania nacional". A Brasil Telecom e a Telemar surgem, então, como as alternativas "brasileiras". O que não se coloca é o fato de a Brasil Telecom ser, na verdade, uma empresa que tem como principal investidor o Citibank, além de participação sem controle da Telecom Italia.

Bons contratos

Para a Alcatel interessaria ter a Brasil Telecom e a Telemar como compradoras: é mais uma garantia de bons negócios, principalmente em um momento em que as duas teles fixas investem pesado em compra de equipamentos GSM. Só que Telemar e Brasil Telecom têm um acionista em comum, o Opportunity, ainda que o grupo de Daniel Dantas, oficialmente, não tenha o controle na Telemar. O problema maior seria o pacto: uma vez "sócias" no negócio de longa distância, seria difícil dar garantias de que as duas empresas buscariam a concorrência em outras frentes.
Por parte da Alcatel, o interesse maior é receber o máximo que conseguir da dívida. Pode fazer isso exigindo em dinheiro o pagamento ou pode fazer isso exigindo contratos futuros. Telemar e Brasil Telecom não comentam sobre o assunto, nem a própria Alcatel. José Carlos Cunha é o único que fala, e garante: "nossa proposta envolve um deságio na dívida menor do que a própria Alcatel estabeleceu quando comprou o débito que a Nortel também tinha na Intelig". Ou seja, os investidores não proporão à Alcatel deságio superior a 85%. "É bem menos do que isso", diz Cunha.
Resta então, analisar a questão do modelo de telecomunicações, até hoje centrado nos "pilares" competição e universalização. O modelo de competição que se viabilizou até aqui foi apenas o de incumbents/espelho. A Intelig conseguiu um bom espaço, assim como a GVT. A Vésper foi a empresa que não se viabilizou. A venda da Intelig para os investidores garante que o modelo ficará mais ou menos inalterado. Já a venda para o consórcio Telemar/Brasil Telecom significa uma mudança. As duas incumbents terão que mostrar que têm interesse em competir em outras áreas usando a Intelig, e não poderão prejudicar a competição dentro de suas próprias áreas. Caso contrário, a compra da espelho de longa distância se mostrará apenas uma compra de ativos, com prejuízos à competição. Nesse sentido, a análise de uma eventual compra da Intelig pelo consórcio de incumbents precisará passar pelo crivo da Anatel e, principalmente, de todo o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (Cade. SDE/MJ, SEAE/MF). A tarefa não vai ser simples.
José Carlos Cunha rebate às críticas de que seu consórcio seria a opção estrangeira. "Esse argumento não faz sentido. São investidores estrangeiros, mas quem toca a empresa são brasileiros". Para ele, o risco da outra opção é mais sério: "como cidadão, não gosto da idéia de ver como opção de compra uma solução que implica mudanças no modelo de telecomunicações. Além disso, esta opção é monopolista". Cunha garante que dará máxima transparência à sua estrutura societária caso se torne o comprador da Intelig, mas não pode adiantar os nomes dos sócios capitalistas. " A Intelig é uma empresa viável e a nossa idéia é mantê-la concorrendo com as demais", adianta, sem detalhar seu business plan.

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