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EDITORIAL
A pizza de Serraglio no forno de Dantas
sexta-feira, 31 de março de 2006 , 18h57 | POR RUBENS GLASBERG

O relatório do deputado Osmar Serraglio (PMDB/PR) na CPMI dos Correios é um atentado à lógica. Diz que a Brasil Telecom, sob a gestão do Opportunity de Daniel Dantas, abasteceu o ?valerioduto?. Dá os motivos que teriam levado aos atos de corrupção, relacionando-os com a tentativa do Opportunity de ?estreitar e melhorar o relacionamento? junto ao governo. Como evidência, cita os depoimentos de Marcos Valério e Delúbio Soares, confirmando encontros com Carlos Rodenburg (sócio do Opportunity). Indicia Valério e Delúbio Soares por corrupção. Mas não pede o indiciamento, como suspeito de corruptor, do Opportunity ou quem quer que seja desse grupo. Evidências não faltam. Além de Rodenburg procurando acesso privilegiado ao PT, além dos recursos da Brasil Telecom ao valerioduto, sabe-se que Humberto Braz, presidente da Brasil Telecom Participações na ocasião, cansou-se de se encontrar com Marcos Valério e seus sócios, fato que infelizmente não foi investigado pela CPI, mas foi apurado pela auditoria interna da BrT. Isso para não falar da Telemig Celular, ainda sob o comando de Dantas, apontada pela própria CPMI como a segunda maior fonte de recursos das agências de publicidade de Marcos Valério, mas que convenientemente se livrou de uma análise criteriosa sobre como o dinheiro era usado.
Se não bastasse essa estranha omissão seletiva no raciocínio serragliano, soma-se ao seu relatório uma evidente e gratuita contribuição aos interesses particulares de Daniel Dantas em sua disputa judicial com os fundos de pensão e o Citibank em diferentes tribunais do Brasil e do exterior, em que a lista de delitos apontados contra o empresário baiano cresce semanalmente.

O relatório dedica seis páginas à contribuição da sub-relatoria dos fundos de pensão (sob o comando do pefelista baiano ACM Neto) para a análise do acordo de put entre os fundos e o Citi. O capítulo tem o título ?transações irregulares? e repete simplesmente acusações (estas sim com motivação muito suspeita de irregularidades) apresentadas pelo deputado Alberto Fraga (PFL/DF) ao TCU. O relatório ignora também as explicações dadas pelos fundos às desastradas incursões de ACM Neto pela matemática financeira. Como não aponta nenhum elo entre o put do Citi e dos fundos e o valerioduto, o que ACM Neto enxerga como ?transações irregulares? só tem uma explicação: ajudar Dantas na fantasia que montou para sua defesa nos tribunais.

Na disputa, por exemplo, que trava com o Citi em Nova York, Dantas (pego seguidamente com a mão na cumbuca) ignora os fatos e se apresenta como vítima de uma conspiração dos fundos, Citi, governo, Telemar e italianos (que, aliás, entram e saem da conspiração). Sem apresentar provas, cria a ficção de que os acionistas da Telemar jogam com o governo para tirá-lo do controle da Brasil Telecom (que não lhe pertence) para juntar as duas empresas, violando assim a legislação brasileira. Tudo isso com a suposta ajuda dos fundos e do Citibank. Vale lembrar que a única pessoa até hoje a propor essa fusão entre as teles publicamente foi o próprio Dantas, em entrevista ao jornal Valor, em 2001. Sem falar da sua tentativa frustrada de entrar no grupo de controle da Telemar de onde foi enxotado pela Anatel, em 2000, numa das raras ocasiões em que a agência não se deixou enganar pelo Opportunity.

Na confusão que sempre estabelece com a ajuda de grandes escritórios de advocacia regiamente remunerados com o dinheiro que não é seu (de Dantas), mas das empresas que lhe coube gerir, o Opportunity conseguiu até agora ganhar tempo e sobreviver. Processos envolvendo Dantas já ultrapassam uma centena, mas não andam ou se arrastam a passo de tartaruga. Quem ainda se lembra do caso Kroll? A Polícia Federal apurou evidências fortes de que Dantas invadiu a privacidade de Deus e o mundo, quebrou sigilos fiscais, telefônicos, de correspondência… Mas o caso está encalhado na Justiça brasileira, protegido por sigilo, praticamente no mesmo estágio em que foi entregue ao Poder Judiciário pela PF.

O assunto do acordo de put entre os fundos e o Citi, enfiado agora sem nenhum critério lógico no relatório de Serraglio pelas mãos de ACM Neto e do PFL, servirá apenas para que os advogados do Opportunity, como sempre fazem, apresentem aos juízes mundo afora mais uma de suas ?evidências? de que os interesses de seu cliente são motivo de séria preocupação do Congresso Nacional. Ou seja, a pizza de Serraglio, além de não indiciar Dantas, serve aos objetivos de Dantas e é assada no forno de Dantas.

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